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Em defesa da borboleta mexicana

Setembro 18, 2008

No manual Caminhos da História, para o 12.º ano, editado pela ASA, o Exército Zapatista mexicano é considerado um “movimento social” que defende o ambiente, a democracia e a justiça, esquecendo que se trata de um movimento de guerrilha num país democrático.

A Voz Portalegrense ficou muito espantada, o Blasfémias também. Não sei porquê, aqui está uma menina da associação em causa, departamento de defesa ambiental, secção Borboleta em plena actividade de protecção da rarissima Marilurdis Rodriguensis, batizada assim em honra de uma senhora que agora não me lembro muito bem o que anda a fazer.

Ó pai que rio é este?

Março 29, 2008

Não é sempre que oiço esta pergunta, dou graças a Deus por isso, mas quando isso acontece lembro-me sempre do meu pai.

O meu pai, produto do ensino atrasado, não inclusivo, autoritário e outras coisas assim e de outros tempos, olhava para mim e com gravidade avisava que na quarta classe já sabia os nomes dos rios e afluentes, das estações de comboios e coisas desse género.

Pobre do meu pai não percebia que eu era filho de outros tempos e eu para além de não perceber a relevância de tanto saber enciclopédico ficava abismado com a imposição, aos meus olhos absolutamente insuportável, de ter de decorar tais coisas! Decorar?! Pelas alminhas! Eu tinha era de perceber! Abarcar! Entender!

Ora qualquer idiota sabia que o acto de decorar era irrelevante. Os professores bem diziam que não era esse o objectivo, estavam a ensinar jovens a pensar e não papagaios a repetir. Assim seguimos todos, pensando, compreendendo tudo e todos…pelo menos durante os 15 minutos em que ainda nos lembrávamos do que se estava a falar.

E eu bem que explicava isto ao meu pai. Aos 14 anos fartei-me porque não valia a pena. O meu pai não poderia compreender e eu, que gostava tanto dele, sentia-me triste por ser tão novo e ter atingindo um entendimento das coisas e do mundo que o meu pai nunca conseguira.

O ensino português provava todos os dias a sua enorme evolução, ela estava em mim e eu um exemplo acabado da sua perfeição. Sem esforço tudo compreendi e com paciência tudo explicava. Até chegar à Universidade.

Nesses dias o choque foi muito intenso, para meu espanto e horror, ninguém se contentava que eu percebesse 30 páginas da matéria, queriam que eu decorasse 300…decorasse? Cada vez que tentava mostrar que compreendia a matéria era humilhado pela total incapacidade de repetir uma definição, um artigo da lei, fosse o que fosse…

À força de humilhações evitáveis fiquei a saber que tinha a cabeça vazia de factos, de dados e por fim de qualquer coisa que se assemelhasse a uma hipótese de compreender fosse o que fosse. Era verdade, só eu não sabia, como ia eu perceber sem ter nada na cabeça que me ajudasse a tal coisa? Como ia eu meter na cabeça se o maravilhoso ensino português impedira com enorme sucesso que dominasse a nobre arte de marrar?

Aos 20 anos tive de começar do princípio, a enfiar dados na cabeça, a marrar, a decorar e um dia, conjugando o que lá ficasse, chegar a perceber uma ou outra coisa.

 

Hoje, com 35 anos, o meu pai já não é vivo mas ainda ando a aprender com ele a pensar.