Archive for the ‘Religião’ Category

O que é isso de uma Aliança de Civilizações? II

Abril 8, 2009

Sabemos hoje que Obama evitou estar presente no fórum da Aliança de Civilizações, haverá muitas razões para tal, sendo que as principais já tinham sido adiantadas em várias alturas. Não são mal-entendidos como adianta o Gabriel Silva, são de facto bem mais que isso.

Há tempos alertei para um artigo da Heritage Foundation (via Paulo Gorjão) sobre algumas das razões que poderiam levar Obama a não perder o seu tempo nesta iniciativa e de facto assim foi.

ain16551Há ainda menos tempo voltei a escrever sobre o assunto, houve quem adivinhasse algum pessimismo nas minhas palavras e tinha alguma razão. Na altura escrevi que “um sistema de valores, filosóficos, culturais, religiosos e ideológicos existe como emanação dos povos que o partilham, não tem como fim ser aceite ou tolerado por um outro sistema que pode muito bem ser diametralmente oposto.

É certo que esse mesmo sistema pode advogar princípios de tolerância para com a diferença mas se confrontado com uma ameaça à sua existência reage de forma a garantir a sua sobrevivência.”

Bernard Lewis, no seu livro “O Médio Oriente e o Ocidente. O que correu mal?”, lembrou que no “Ocidente havia há muito o hábito de pensar em bom ou mau governo em termos de tirania versus liberdade. Tradicionalmente, no Médio Oriente, imunidade ou liberdade eram vistos como conceitos legais e não políticos. (…) ao contrário do Ocidente, os Muçulmanos não utilizavam a escravidão e liberdade como metáforas políticas. (…) o oposto da tirania não era liberdade, mas justiça.”

Aqui está uma diferença entre duas civilizações que não pode ser apagada por qualquer documento que advogue o recurso a uma linguagem que “esconda” essa mesma diferença em nome de uma melhor compreensão do próximo.

O discurso politicamente correcto não serve nada nem ninguém, mas apenas tenta perpetuar a ilusão que não há diferenças que quando são ignoradas matam.

Já publicado aqui

O Cartório de cada um

Junho 30, 2008

José Sócrates, acusou o PCP e o BE de julgarem possuir um «cartório onde podem passar um certificado de ser ou não de esquerda» e no fundo até desejarem que os outros, do PS, «pagassem um dizimo àqueles que são do verdadeiro socialismo e da verdadeira esquerda».

Não é difícil, olhando para o argumentário do BE ou do PCP, que se não for essa a maneira de estes dois partidos olharem a realidade política é por aí.

O BE apoia o seu discurso na posição do “angry young man”, de costas voltadas a tudo que não se conforme com a sua visão do mundo, a única que é justa, porque só ele, como os jovens pré-adultos que perfazem boa parte do seu eleitorado, é que entende o mundo, a injustiça, os problemas, só ele é que os vê. O BE, que reagiu na mesmos termos com que se sentiu ofendido pela voz de Louçã, assenta toda a sua existência nesta maneira de estar na vida, nesta certeza que só eles estão a olhar para o mundo com olhinhos de ver e o resto é cego.

O PCP, actua como sempre o fez e fará, como o partido mais conservador do panorama nacional, desconfiado da realidade e dos tempos, qualquer alteração é má por definição a não ser que confirme aquilo que defendem, independentemente de pensarem se o que ainda defendem tem alguma adesão à realidade.

Sócrates tem toda a razão? Nem por isso. Não fosse de Sócrates que falamos, o homem que sabe e afirma que só ele se esforça, só ele tem razão e tudo o que o contrariar ofende quem quer o bem de todos nós, como ele quer e sobretudo ofende-o. Algo que ele suporta com pouquíssima paciência.

Quem sobra? Ninguém, porque afinal só no PSD se encontra quente séria e vertical, que não um dia lá dirá o que pensa sobre o que achar relevante para não nos deixar nas entrelinhas e no PP, só eles têm uma verdadeira visão do que é Portugal, sendo que só por má vontade, se não for por maldade, é que o resto do espectro partidário se recusa a olhar para o país da mesma maneira.

Uma santa beata e uma beata santa

Janeiro 5, 2008

No inicio do ano fomos brindados com a extraordinária notícia, que fez manchete em praticamente todo o lado, que o inspector geral da ASAE fumava onde não devia e pior… fazia interpretações erradas da lei. Éh Lé!!! 

Subitamente mergulhámos de cabeça naquilo que mais agrada a muita gente, a condenação moral do próximo. Desta vez com a ajuda da produção legislativa de extraordinário calibre que Portugal tanto gosta de cuspir e onde a lei do tabaco é um bom exemplo.

A lei assume aqui um carácter moralizador da vida do cidadão, um bom exemplo dos velhos sonhos de arquitectos da sociedade e designers de comportamentos.

O que deu gozo a tantos foi poder atirar tal coisa à cara de quem hoje personifica esse tudo querer educar, o “tipo da ASAE”, o gajo que não nos deixa beber ginjinha, matar o porco em paz, beber licor de noz do alambique do vizinho, esse chato. A lei do tabaco é um bom exemplo mas não o único, o decreto lei que visa determinar quais os nomes mais apropriados para os liceus públicos e onde as propostas de denominação […] devem fundamentar-se no reconhecido valor de personalidade que se tenha distinguido na região, nomeadamente no âmbito da cultura, da ciência ou educação, podendo ainda ser alusivas à memória da expansão portuguesa, à antiga toponímia ou a características geográficas ou históricas do local onde se situam os estabelecimentos de educação ou de ensino”… houve quem se perguntasse onde ficavam as centenas de denominações relativas a santos… O Governo veio esclarecer que em lado nenhum e todo o lado. Eis outro carinhoso exemplo de como se gosta de produzir leis e fazer arquitectura social.

Proponho uma redenominação  das freguesias, de preferência ignorando a religião, porque o Estado tem de ser laico, ao ponto de estar esterilizado e limpo, da história e preferencialmente de vontade livre.

Laicos Radicais

Janeiro 4, 2008

Carlos Abreu Amorim, debruça-se e mais uma vez cai, quando se dispõe a discutir aquilo que ele define como a sua opção liberal face à religiosidade – seja ela organizada ou não – assumindo mais uma vez que a coragem e a bondade da sua posição se sobrepõe à “…dos adeptos do oculto organizado”. 

Como sempre CAA mostra-se incapaz de ultrapassar a demonização dos adversários, o que não deixa de ser cómico.

Na verdade CAA recorre a esse argumento em face de qualquer questão que o oponha a outrem, sempre.  Sejam eles, “…acólitos do sobrenatural”, claramente dementes, que “imaginam perseguições”,  mas obviamente porque estão em causa os “…seus privilégios e isenções, sempre muito materiais”, ou sejam outros pobres diabos, CAA não faz diferenças.

Todos são maus ou loucos, ou ambas as coisas com uma agenda debaixo do braço. 

CAA pergunta-se o que é essa coisa de laicismo radical, apenas para dar a definição no próprio texto em que denúncia a inexistência de tal coisa.Laicos radicais não são os que nunca se ajoelham perante ninguém, homem, estátua ou simples pressentimento do desconhecido, são os que olham para os que ajoelham com as certezas que CAA verte há anos em cada texto que escreve.  

CAA não é um liberal, só ele é que não percebe.

I don’t believe in much, I only have ideas

Dezembro 18, 2007

“humanity took a good idea and, like always, built a belief structure on it…I think it’s better to have ideas. You can change an idea. Changing a belief is trickier. People die for it, people kill for it”

Chris Rock em Dogma