Archive for the ‘educação’ Category

Notas sobre a educação

Outubro 26, 2009

Nos últimos quatro anos assistimos a um movimento de decapitação do ensino em Portugal. À força de medidas superficialmente benévolas e inspiradas, onde a necessidade de uma avaliação de professores era um imperativo de qualidade desejável, lenta mas inexoravelmente e sem que para tal fosse alheio o comportamento da anterior Ministra da Educação mas sobretudo uma velha e estafada tradição do “eduquês” em Portugal, um conjunto absurdo de regras e a sua posterior aplicação levou a que os mais experientes professores desejassem mais que nunca um merecido descanso que os poupasse às agruras do processo tolo e perigoso em que se transformou a ideia da avaliação.

Sobraram os que ainda não estando dispostos à reforma antecipada estavam ainda dispostos a enfrentar velhas imposições de igualdade que tem tanto de irrealista como de irresponsável, sempre sujeitos à manipulação oportunista de Governo e Sindicatos. Essa velha ideia, com décadas de resto, foi então levada ao absurdo.

Em vão se tentou mascarar a tolice com a igualmente estafada ideia de mérito, ignorando-se propositadamente ou por pura incompetência, que a ideia de igualdade assim aplicada exclui a necessidade do mérito. Pior que isso, a igualdade deixou de ser a de oportunidades – também ela irrealista – mas a de igualdade como fim último culminando no absurdo: o estatuto da avaliação do aluno.

Assim, de uma assentada, professores e alunos foram libertos das responsabilidades, da mais justa comparação entre os que se esforçam e os que não fazem e porque, é bom perceber, a igualdade tal como percebida por este governo que agora volta a funções e sujeita como sempre esteve aos sacrossantos rankings, só se afigura exequível no espaço curto de tempo se as exigências e pontos de referência forem as do mínimo exigível. Satisfazem-se os rankings e os medos eleitorais, sacrifica-se o futuro e as expectativas de quem se esforça.

Concluindo: Se somos todos iguais, se nos fazem iguais e se os resultados serão nivelados sempre pelo professor ou o aluno mais fraco, de que serve o esforço? Para que interessa trabalhar mais que o próximo? A resposta está aí para todos verem.

Para chorar

Junho 30, 2008

Quase dois mil assistentes lançaram uma sonora gargalhada quando ouviram um secretário de Estado anunciar mais um estupendo desígnio para daí a poucos anos. O governante em questão ocupa-se das matérias da educação e no caso concreto proclamou aos técnicos presentes naquele encontro que, em 2013, a escola será totalmente inclusiva. Esta gargalhada é a mais dura resposta e o mais terrível sinal dado até agora a qualquer governante em Portugal. (…)

Helena F Matos

Sobre educação, prós & contras, a miúda do telemóvel e sei lá mais o quê

Abril 4, 2008

Método da Escola da Ponte de parte, resulta com uns e não com outros e quando adaptado em escolas privadas terá alterações e patatipatatá… A autonomia da Escola da Ponte para criar o seu próprio método e determinar como o deve aplicar é que talvez devesse ser objecto de reflexão… mas que se lixe.

O Prós e Contras foi melhor que o costume e suficientemente esclarecedor para quem for susceptivel de ser esclarecido, sobre a falência do eduquês, o disparate ideológico que verte de personalidades como Joana Amaral Dias e não esquecer o pobre CAA, doido de todo, a falar no meio daquilo de, pasmem, autoridade. Eu que com ele discordo muitas vezes e não lhe gabo a forma, só tive pena de não estar também ali a bater palmas… ah valente!!

Sobre a miúda do telemovel, nem jornalistas, nem MP, nem um só responsável parece perceber que a questão da indisciplina não se resolve nos tribunais ou nas televisões.

Ó pai que rio é este?

Março 29, 2008

Não é sempre que oiço esta pergunta, dou graças a Deus por isso, mas quando isso acontece lembro-me sempre do meu pai.

O meu pai, produto do ensino atrasado, não inclusivo, autoritário e outras coisas assim e de outros tempos, olhava para mim e com gravidade avisava que na quarta classe já sabia os nomes dos rios e afluentes, das estações de comboios e coisas desse género.

Pobre do meu pai não percebia que eu era filho de outros tempos e eu para além de não perceber a relevância de tanto saber enciclopédico ficava abismado com a imposição, aos meus olhos absolutamente insuportável, de ter de decorar tais coisas! Decorar?! Pelas alminhas! Eu tinha era de perceber! Abarcar! Entender!

Ora qualquer idiota sabia que o acto de decorar era irrelevante. Os professores bem diziam que não era esse o objectivo, estavam a ensinar jovens a pensar e não papagaios a repetir. Assim seguimos todos, pensando, compreendendo tudo e todos…pelo menos durante os 15 minutos em que ainda nos lembrávamos do que se estava a falar.

E eu bem que explicava isto ao meu pai. Aos 14 anos fartei-me porque não valia a pena. O meu pai não poderia compreender e eu, que gostava tanto dele, sentia-me triste por ser tão novo e ter atingindo um entendimento das coisas e do mundo que o meu pai nunca conseguira.

O ensino português provava todos os dias a sua enorme evolução, ela estava em mim e eu um exemplo acabado da sua perfeição. Sem esforço tudo compreendi e com paciência tudo explicava. Até chegar à Universidade.

Nesses dias o choque foi muito intenso, para meu espanto e horror, ninguém se contentava que eu percebesse 30 páginas da matéria, queriam que eu decorasse 300…decorasse? Cada vez que tentava mostrar que compreendia a matéria era humilhado pela total incapacidade de repetir uma definição, um artigo da lei, fosse o que fosse…

À força de humilhações evitáveis fiquei a saber que tinha a cabeça vazia de factos, de dados e por fim de qualquer coisa que se assemelhasse a uma hipótese de compreender fosse o que fosse. Era verdade, só eu não sabia, como ia eu perceber sem ter nada na cabeça que me ajudasse a tal coisa? Como ia eu meter na cabeça se o maravilhoso ensino português impedira com enorme sucesso que dominasse a nobre arte de marrar?

Aos 20 anos tive de começar do princípio, a enfiar dados na cabeça, a marrar, a decorar e um dia, conjugando o que lá ficasse, chegar a perceber uma ou outra coisa.

 

Hoje, com 35 anos, o meu pai já não é vivo mas ainda ando a aprender com ele a pensar.