Colado ao ecrã

Tendo pegado na trouxa quinta-feira e rumado para o norte do país, prometi ficar longe do país e mais próximo da canzoada, gataria e demais bicharada que preenche a casa da família. Casa essa que como é de bom-tom não possui outra ligação à realidade portuguesa que o acesso a três canais (RTP, canal 2 e SIC) e um acesso meio ruidoso à TVI.

Reduzido ao mínimo indispensável – quanto à internet apenas a consultei para ver o tempo – respirei fundo e cortei nos jornais. Só que os vícios citadinos são mais fortes que as minhas boas intenções e aparte dos jornais, tratei de absorver tudo o que aparecia na televisão na esperança que tendo abandonado o mundo já esse não me tivesse abandonado. Tudo isto em vão porque, como descobri logo na sexta-feira, qualquer esforço de isolamento por estes meios era um exagero, é perfeitamente possível ficar isolado em plena Lisboa se seguirmos esta simples regra: Não ver mais nada que os quatro canais em sinal aberto e não ler jornais, sendo que aqui cumpre esclarecer que é preciso ler pelo menos uma meia dúzia para não ficarmos a leste.

Assim e para meu esclarecimento, no sábado à noite, já assistira a meia centena de notícias à volta do fenómeno Ronaldo e da atrevida Paris Hilton, uma dezena de alusões ao escândalo que fora o dinheiro envolvido na sua transferência para Madrid com direito a análise do Senhor Presidente da República, umas tímidas alusões à sua prestação na Selecção Nacional que fez um grande jogo ao empatar com uma agremiação desportiva de valor nulo.

Fora estas importantes novidades, assisti hipnotizado; a uma entrevista do Ministro da Agricultura que, num tom monocórdico, tentou convencer o país que quase todos os agricultores portugueses são (no mínimo) gente de maus fígados e pouco sérios. Uma profusão de telenovelas e o anúncio de mais uma dezena de novas obras-primas da ficção nacional que roubam os seus títulos a êxitos da pop nacional, vários concursos cujo os nomes não consegui decorar, mais um jogo de futebol patrocinado por Figo, uma série de televisão cujo episódio já deu cinco vezes no AXN, vários programas dedicados ao jet-set nacional em que pontuam vários actores e actrizes das novelas supracitadas e uma mão-cheia de cabeleireiros, tudo isto embrulhado no grande acontecimento mediático que foi o concurso de marchas populares em que se discutiu taco-a-taco o título do bairro mais desafinado da capital.

Fiquei assim definitivamente esclarecido quanto à qualidade da televisão feita nos quatro canais e não vou sequer debruçar-me sobre as inenarráveis tentativas de divulgação cultural do Canal 2 que daria material para vários posts.

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