O Visigodo Azul

Este texto, escrito para A Razão das Coisas, estava irremediavelmente perdido mas o meu cunhado teve a amabilidade de me o encontrar, guardou-o sabe se lá porquê. Aqui fica este singelo episódio.

Mal chegara a casa do meu sogro, notara com preocupação uns gravetos de madeira espalhados no quintal. Disfarcei e não falei no assunto, desconfiado que o meu sogro me encarregaria da tarefa de limpeza mais tarde ou mais cedo. Adivinhando a minha preocupação, o senhor da casa, tratou de atravessar o corredor e aparecer ao meu lado com o tradicional sorriso que se poderá traduzir numa frase: “tenho aqui um trabalhinho para daqui um bocado”.
Note bem o leitor que o meu sogro é um homem justo e não gosta de deixar ninguém na dúvida pelo que tratou de traduzir o sorriso pelas palavras acima escritas, palavrinha por palavrinha. E ali ficou a contemplar os gravetos.
O leitor deve já ter adivinhado que os gravetos eram coisa pesada. Deixem-me elucida-los no seguinte ponto: cada graveto consistia numa tábua de cerca de dois metros de comprimento por cinquenta centímetros de espessura, restos de um desgraçado carvalho que por ali parava e se via agora às postas no quintal. Duas toneladas e meia de tabuinhas para movimentar.
Nestas coisas também já estou treinado e disparei em direcção às tabuinhas. Peguei numa ponta e tratei de a içar. Fiz questão de pegar na que me pareceu mais pesada e esperei pelo meu sogro que tendo avaliado o peso da outra ponta prontamente concluiu que a coisa merecia mais uns dias para orçamentar.
“Um a zero!” Pensei com um ar satisfeito enquanto fingi não me arrastar até casa. Desatei a falar de um tractor, maquinaria pesada e coisas do género. A coisa pareceu passar e os gravetos lá ficaram uns dias.
Dias que se passaram bem mas depressa e com maior preocupação que antes verifiquei que o Senhor Artur, minhoto encarnadinho, passava pelos ditos gravetos em direcção à quinta, como se nada fosse. Não via preparativos nem nada. Temia o pior. E o pior veio na forma de um guindaste vestido de fato de treino e boné azul que mal encaixava numa cabeçorra enorme.
“Pois querias um tractor aqui tens o que de mais parecido posso arranjar em tão pouco tempo” Pareceu dizer o meu sogro, pareceu porque não disse mas sei que pensou porque só não desatou a rir com a minha cara por simpatia para com o meu cunhado que, apanhado distraído, foi alistado na empresa.
“É ele que nos vai ajudar?” Perguntei. “É pois! É um touro de força, tanta como um tractor. E não lhe fica atrás em inteligência!”
Olhei com respeito para o colosso que olhava com ar inteligente para as tabuinhas, cada uma de uns duzentos e cinquenta quilos. Um metro e noventa, uns cento e poucos quilos, umas pás a fingirem de mãos, um crânio adornado de olhos pequeninos e uma barba talibã.
“Atão bamos lá lebar estas cousas” Disse com um ar distraído quando se punha numa das pontas.
Ora, eu sou boa pessoa e nestas coisas faço fé na bondade das pessoas, mas cada tronquinho daqueles precisava de duas bestas iguais àquela em cada ponta.
Era muita fé e duvidei.
Duvidei mas mal, porque estava eu e o Senhor Artur numa ponta, munidos de uma barra de ferro a fazer de suporte, de músculos a estoirar e já o visigodo azul perguntava inocentemente porque estávamos tão paradinhos.
Olhei para trás e vi os nossos antepassados, os que Camillo lembrou quando contemplava o seu arcaboiço e o comparava às férreas caixas torácicas d’aqueles selvagens, admirando a sapientíssima providência que deu pulsos de bronze a uma geração que estrangulava sarracenos e músculos de algodão em rama a ele e já agora, a mim.
Lá fomos nós, tonelada a tonelada arrastámos as tabuinhas para outro lugar e empilhamos, cientificamente, as ditas umas por cima das outras. O Senhor Artur, eu e o meu cunhado lá nos revezámos quando sentimos qualquer coisa a estalar na espinha ou algum tendão a estoirar. Na outra ponta seguia feliz e contente o visigodo azul que a dada altura pediu para parar.
”Deus! Afinal tudo tem limites!” Pensei.
O tractor precisava de lubrificação, que eu lhe trouxe na forma de uma superbock e que ele fez desaparecer em exactamente 9.8 segundos, ficando a olhar para mim com o mesmo ar inteligente que descortino numa vaca barrosã.
O meu cunhado sussurrou que devíamos ter trazido uma garrafita de litro, por uma questão de respeito pelas proporções. Antes sequer de eu ter tempo para entreter tal pensamento já o visigodo azul estava agarrado a outro raminho, enquanto o Senhor Artur lembrava com carinho como o tractor que trouxe as tabuinhas vinha com atrelado feito em fanicos porque se excedera as duas toneladas e meia de carga.
Foi mais uma boa meia horinha de puro desespero até ao fim. O visigodo azul disse que tinha fominha e saiu, não sem deixar de me dar um aperto de mão que liquidou as minhas perspectivas em me tornar um razoável pianista.

Na varanda sorria o meu sogro acenado a cabeça em aprovação e depois retirou-se. Eu sentei-me e olhei com carinho para o meu cunhado que se arrastava a caminho de casa. O Senhor Artur desapareceu agarrado ao que restava de uma cerveja. Fiquei ali sozinho a olhar para os peixes do lago que comigo tiveram o privilégio de assistir a tal feito que ficará esquecido nos anais da história. Diria mesmo da História.

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