Ó pai que rio é este?

Não é sempre que oiço esta pergunta, dou graças a Deus por isso, mas quando isso acontece lembro-me sempre do meu pai.

O meu pai, produto do ensino atrasado, não inclusivo, autoritário e outras coisas assim e de outros tempos, olhava para mim e com gravidade avisava que na quarta classe já sabia os nomes dos rios e afluentes, das estações de comboios e coisas desse género.

Pobre do meu pai não percebia que eu era filho de outros tempos e eu para além de não perceber a relevância de tanto saber enciclopédico ficava abismado com a imposição, aos meus olhos absolutamente insuportável, de ter de decorar tais coisas! Decorar?! Pelas alminhas! Eu tinha era de perceber! Abarcar! Entender!

Ora qualquer idiota sabia que o acto de decorar era irrelevante. Os professores bem diziam que não era esse o objectivo, estavam a ensinar jovens a pensar e não papagaios a repetir. Assim seguimos todos, pensando, compreendendo tudo e todos…pelo menos durante os 15 minutos em que ainda nos lembrávamos do que se estava a falar.

E eu bem que explicava isto ao meu pai. Aos 14 anos fartei-me porque não valia a pena. O meu pai não poderia compreender e eu, que gostava tanto dele, sentia-me triste por ser tão novo e ter atingindo um entendimento das coisas e do mundo que o meu pai nunca conseguira.

O ensino português provava todos os dias a sua enorme evolução, ela estava em mim e eu um exemplo acabado da sua perfeição. Sem esforço tudo compreendi e com paciência tudo explicava. Até chegar à Universidade.

Nesses dias o choque foi muito intenso, para meu espanto e horror, ninguém se contentava que eu percebesse 30 páginas da matéria, queriam que eu decorasse 300…decorasse? Cada vez que tentava mostrar que compreendia a matéria era humilhado pela total incapacidade de repetir uma definição, um artigo da lei, fosse o que fosse…

À força de humilhações evitáveis fiquei a saber que tinha a cabeça vazia de factos, de dados e por fim de qualquer coisa que se assemelhasse a uma hipótese de compreender fosse o que fosse. Era verdade, só eu não sabia, como ia eu perceber sem ter nada na cabeça que me ajudasse a tal coisa? Como ia eu meter na cabeça se o maravilhoso ensino português impedira com enorme sucesso que dominasse a nobre arte de marrar?

Aos 20 anos tive de começar do princípio, a enfiar dados na cabeça, a marrar, a decorar e um dia, conjugando o que lá ficasse, chegar a perceber uma ou outra coisa.

 

Hoje, com 35 anos, o meu pai já não é vivo mas ainda ando a aprender com ele a pensar.  

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