Arquivo de Junho, 2009

Nota aos tolinhos

Junho 30, 2009

Uma boa maneira de remover as verdades inconvenientes e substituí-las por mentiras mais confortáveis é “limpar” o passado de coisas menos confortáveis. É uma escolha covarde. A ideia que o tempo é importante nem sequer é relevante, nem o tempo nem o modo mas apenas o conteúdo importa. Aguardemos então sem pressas o que nos tem para dizer o programa de governo do PSD, certos que será lido por pouco mais gente que os que o elaboraram, embora aqui não me devo espantar que esses só leiam a parte que escreveram.

É uma questão de saber que existe uma escolha e que essa escolha é real. O resto, o tempo, o modo, as vaidades pessoais que fazem parte disto tudo são perfeitamente secundárias, são palha a arder.

É uma questão de clareza e de não alinhar em superficialidades

Junho 30, 2009

Eu diria antes, parafaseando António Machado,  para se ter cuidado com uma sociedade onde a blasfémia não é permitida porque nessa altura é o ateismo que domina.

Pacheco Pereira e os contrapontos

Junho 29, 2009

Estive a ver, com muita atenção, o novo programa de Pacheco Pereira na SIC-N. Em primeiro lugar é preciso que se diga que Pacheco Pereira é, há muito tempo, um household name mas mais que isso é alguém que considero um bom comunicador, culto e bem preparado. É fácil ouvi-lo.

O programa está aqui. Pessoalmente e apenas quanto à forma não gosto dos “separadores” estridentes mas é uma coisa cá minha e é curto, demasiado curto.

Há quem esteja muito chocado com esta oportunidade mediática de Pacheco Pereira, eu não. Entre ele e as variadas formas com que a esquerda usufrui nos media para passar a sua mensagem há ainda um desequilíbrio muito grande na balança em claro favor da esquerda.

Por outro lado, como de resto faço todos os dias e com outros blogues, li mais um dos seus posts no Abrupto. Mais uma vez Pacheco Pereira resolve mostrar aquilo que ele acha que melhor ilustra a diferença entre a imagem e as ideias, mais precisamente entre o político com ideias que não é necessariamente alguém com imagem e o político com imagem mas que ele diz não ter ideias. Para tal vai buscar alguns exemplos a começar com Winston Churchill.

Ora acontece que Winston Churchill não foi um político qualquer em nenhum sentido da palavra, nem no conteúdo nem na imagem e tenho sérias dúvidas que Churchill não obtivesse igual sucesso nos dias mediatizados de hoje até porque era alguém que cultivou, metódica e quase cientificamente, um sentido muito forte da importância da imagem.

Desde muito novo fez tudo o que pode ao seu alcance para estar nas “luzes da ribalta” e fê-lo consciente da importância que essas “luzes” tinham. Os meios eram diferentes dos de hoje e obrigavam a algum trabalho, mas não faltaram favores – pedidos por ele ou pela sua mãe – a vários jornais para publicação de artigos, trabalhos jornalísticos, autobiografias, etc… Ou seja, Winston Churchill, sendo um homem com conteúdo, corajoso até fisicamente, era também alguém com uma grande consciência da sua imagem e da importância da imagem na política, foi talvez um dos primeiros políticos com uma agenda mediática estudada e preparada ao longo de anos.

Apresentá-lo como uma espécie de exemplo de má imagem vs bom conteúdo é um erro que só se justifica por preconceito de Pacheco Pereira mais do que por ignorância, justificação que eu não lhe concedo. Não faltam estudos, livros, papers vários que se dedicaram à análise deste cuidado que Churchill punha em tudo quanto era público sobre ele, sobre a sua imagem e reputação. Mesmo que assim não fosse bastaria ler as suas várias biografias políticas e de vida para o perceber.

Foram muitas as qualidades, mas este cuidado na imagem também, que lhe garantiram uma sobrevivência política para alem do que seria de esperar até ao momento em que assumiu os destinos de uma nação em guerra, depois foram qualidades de liderança muito próprias e que pouco tem que ver com a sua idade mas onde nem aí esse aspecto mediático esteve ausente, recorde-se o seu gesto mais famoso e que por si só valeu um discurso inteiro, quando na hora mais difícil e sem encontrar palavras para dar coragem aos seus concidadãos ergueu a mão e fez o sinal do V de vitória.

Posto isto, estou em crer que Churchill seria hoje em dia um político com igual sucesso e capacidade de intervenção.

Para terminar, Pacheco Pereira, junta no mesmo saco os seus ódios de estimação para fazer o contraponto a Churchill: Sócrates, o novo porta-voz do PS – tal como foi apresentado pelo Expresso – e um antigo ódio, desde os tempos da Distrital de Lisboa, Passos Coelho. Ora acontece que eu não dando o benefício da ignorância a Pacheco Pereira sobre a figura de Winston Churchill muito menos a dou sobre Passos Coelho. Em qualquer dos casos (deixo de fora Sócrates, Tiago Silveira e o Expresso) Pacheco Pereira joga deliberadamente na ignorância de quem o lê, torcendo a realidade para melhor se adaptar aos argumentos com visa convencer e influenciar. Sim, porque Pacheco Pereira não está fora neste jogo, nem quer estar, pelo que não se deve espantar se outros o tratarem nos mesmos termos e com a mesma parcialidade que ele o faz.

Sobre o tema da renovação da bancada parlamentar do PSD repito o que aqui já escrevi, sem fingir ingenuidades e muito menos recordar exemplos de virtudes que não são únicas ou sequer originais.

Promessas são promessas e que se dane o resto

Junho 25, 2009

(…)

Como sabemos – alguns felizardos não saberão, a notícia passou-lhes despercebida – o senhor Ministro da Economia decidiu recentemente transferir de Coimbra para Aveiro a direcção regional de economia da região Centro.
A transferência não se deve a uma concepção alternativa da organização periférica do Ministério. Não tem por base um estudo visando o aumento da eficácia dos meios disponíveis.

(…)

A razão, profunda, decisiva, evidente para o senhor Ministro, foi a promessa eleitoral que fez nesse sentido. Quando, nas últimas legislativas, se candidatou por Aveiro. Não, não estou a inventar.
Foi a razão que o gabinete do senhor Ministro apresentou à Comunicação Social como fundamento da decisão, conforme foi noticiado e não desmentido.
Dane-se o interesse público. Esqueça-se o Ordenamento do Território. Qual combate às assimetrias regionais! Isso do posicionamento dos meios públicos tendo em atenção as necessidades, é perfeitamente inoportuno. Até porque uma promessa, é uma promessa.

(…)

Rogério Gomes (ler tudo aqui)

Só no fim é que se vai perceber

Junho 24, 2009

Tradicionalmente o conceito de Evolução tem sido visto como um processo em que num leque de possíveis variações numa população apenas algumas delas conseguem sobreviver e proliferar, sendo que as restantes se extinguem.

Ora, a sobrevivência tem estado associada às maiores capacidades evolutivas da espécie sobrevivente. No entanto, esta conclusão só é passível de confirmação num momento posterior aos eventos que servem de fronteira e logo do momento de distinção entre os que perecem e os que sobrevivem, parece que a chave da sobrevivência está em saber quando é que esse momento de distinção chegará. Em política e nos partidos políticos podemos observar algo similar mas para que tal seja possível há elementos que devem ser tidos em conta.

A criatividade de um partido político é modelada pela interacção construtiva dos seus elementos enquanto que a selecção depende do peso e influência daqueles que tentam suprimir a existência de outros no mesmo espaço, só será possível verificar as capacidades evolutivas do partido como um todo num momento posterior sendo mais fácil perceber que a capacidade de sobrevivência de um partido político é mais uma característica do todo do que de um ou outro individuo.

Quando um partido político está na situação em que os elementos que tentam suprimir a acção e influência de outros é reduzida a um mínimo necessário para evitar o caos, a criatividade é maximizada e todo o partido evolui, adapta-se e sobrevive, no entanto se o mesmo partido resolve “alimentar” a existência e peso de demasiados destes elementos “supressores” é a estagnação do próprio partido que se torna o resultado mais provável.

Coragem tardia!…

Junho 24, 2009
Um grupo de Economistas de formação e outros de equiparação lançaram um Manifesto, pedindo a reavaliação e, nalguns casos, a travagem dos grandes investimentos públicos. Porquê? Porque não são suportáveis pela economia e pelas finanças públicas. Diz o Manifesto que “o défice externo situou-se nos 10,5% do PIB em 2008 e a dívida externa líquida cresceu de 14% do PIB, em 1999, para cerca de 100%, em 2008, e a dívida pública directa cresceu de 56% do PIB, em 1999, para 67% em 2008”.
Fizeram bem os Economistas. Bem, mas demasiado tarde.
Uma boa parte deles, ainda não há muito tempo, entoava louvores à consolidação orçamental anunciada a cada passo pelo Governo, esquecendo ostensivamente que ela era feita, não pela redução da despesa pública, mas pelo aumento dos impostos. E, ainda mais grave, não se dando conta que a despesa corrente vinha sempre aumentando em termos nominais, em termos reais e em relação ao PIB. E, pior ainda, que o investimento público, também ao contrário do que o Governo dizia, vinha diminuindo ano após ano: em 2006, menos do que em 2005, em 2007, menos do que em 2006, e em 2008, menos do que em 2007. Muitos desses economistas, oligopolistas da opinião, com acesso livre e imediato à comunicação social, nunca o disseram no tempo devido.
Pelo contrário, também muitos deles manifestaram-se contra a política orçamental de Manuela Ferreira Leite que, contra ventos e marés, procurava sanear as contas públicas, sofrendo uma barragem de críticas que dificultou, e de que maneira, esse desiderato.
Mais valendo tarde do que nunca, fizeram bem os Economistas. Pena foi que não o tivessem feito antes. E precisassem do incentivo da derrota de Sócrates nas Europeias!…Falo de alguns, não falo, obviamente, de todos!…
Pinho Cardão

Uma coisa parece garantida

Junho 24, 2009

… com mais ou menos renovação, maior ou menor ranger de dentes e outras coisas que são previsiveis e habituais na elaboração das listas para deputados, o PSD vai ter um grupo parlamentar muito superior em qualidade (e espero que em quantidade) ao actual. Não é, nunca foi, uma questão de ser fácil ou não mas uma questão de vontade e como já foi anunciado essa vontade existe e vai ser posta em prática. Não tenho problema nenhum em dizê-lo desde já, que será a Manuela Ferreira Leite que o teremos de agradecer. É que não faz muito tempo – embora haja quem se tenha esquecido – que durante os confusos meses Menezistas isso era quase uma miragem.

Estranhas formas de vida

Junho 21, 2009

Nos últimos dias, desde dia 7 de Junho, assisti com alguma curiosidade como as origens intelectuais de um famoso comentador o levaram a promover – com as deveidas cautelas – umas purgas no PSD, ora acontece que tais coisas não terão lugar pura e simplesmente. Santana Lopes foi um sinal claro e o dito comentador percebeu isso há muito. Ensaia assim um acto de uma peça de teatro que se destina a uns poucos fieis seguidores.

Estes fieis seguidores não partilham as mesmas origens intelectuais mas justamente origens bem opostas. O que os leva ao mesmo ponto? Quem lê os textos destes “jovens lobos” ficará espantado com as certezas que dali saem, os julgamentos morais de sacristia, as certezinhas absolutas, a profunda ignorância do PSD, uma ilusória superioridade moral que só existe naquelas cabeças e que tem justificado as mais descaradas mentiras e ofensas num espectáculo de covardia intelectual sem par.No fim, depois de tudo espremido, não sobra muita coisa mas confesso que incomoda, não existe nem um daqueles espécimes a quem eu conceda pouco mais que algum atrevimento e muita indigência mental mas ler as mentirolas, as beatas (logo a mim é realmente de andar ao estalo) considerações e as mentiras faz-me ter pensamentos muito pouco cristãos e uma vontade dar livre curso ao pecado da vingança. Entretanto rezo porque nunca se sabe se terei de me confessar mais cedo do que pensava.

Não custa nada estar informado

Junho 16, 2009

Ora, eis que de volta a casa me deu a vontade de ir buscar à blogoesfera aquilo que senti falta na comunicação social nacional a que aludi anteriormente.

Dito e feito, uma passagem rápida pelos blogues que vou seguindo permitiu-me constatar que Portugal é informado de forma mais eficaz olhando a blogoesfera portuguesa todas as manhãs e assim, fiquei a saber entre outras coisas: o que se passou em Teerão, o conteúdo da entrevista de Louçã, várias análises ponderadas sobre o PSD (com especial destaque para o Henrique Raposo), uma mão cheia de esclarecedores comentários da esquerda portuguesa e subtis alertas ao Grande Chefe para os salvar em Outubro, o maravilhoso caso de Saramago vs um certo líder italiano que lhe causa aflições, duas notas sobre o revelador artigo de JPP no Público (as duas no Blasfémias) e muito mais.

Concluo que para a próxima basta levar uma ligação de Internet e uma mão cheia de filmes em dvd que não é preciso mais nada para ficarmos a saber o que interessa.

Para terminar uma nota cómica: Se JPP gosta de demonstrar como naquela cabeça o amor às purgas partidárias e à verdade se mantém intacto, o que dizer dos post’s e série de comentários que o mais disparatado dos bloggers nacionais – de seu nome Carlos Santos – dedicou ao nosso Paulo Pinto Mascarenhas?

Colado ao ecrã

Junho 16, 2009

Tendo pegado na trouxa quinta-feira e rumado para o norte do país, prometi ficar longe do país e mais próximo da canzoada, gataria e demais bicharada que preenche a casa da família. Casa essa que como é de bom-tom não possui outra ligação à realidade portuguesa que o acesso a três canais (RTP, canal 2 e SIC) e um acesso meio ruidoso à TVI.

Reduzido ao mínimo indispensável – quanto à internet apenas a consultei para ver o tempo – respirei fundo e cortei nos jornais. Só que os vícios citadinos são mais fortes que as minhas boas intenções e aparte dos jornais, tratei de absorver tudo o que aparecia na televisão na esperança que tendo abandonado o mundo já esse não me tivesse abandonado. Tudo isto em vão porque, como descobri logo na sexta-feira, qualquer esforço de isolamento por estes meios era um exagero, é perfeitamente possível ficar isolado em plena Lisboa se seguirmos esta simples regra: Não ver mais nada que os quatro canais em sinal aberto e não ler jornais, sendo que aqui cumpre esclarecer que é preciso ler pelo menos uma meia dúzia para não ficarmos a leste.

Assim e para meu esclarecimento, no sábado à noite, já assistira a meia centena de notícias à volta do fenómeno Ronaldo e da atrevida Paris Hilton, uma dezena de alusões ao escândalo que fora o dinheiro envolvido na sua transferência para Madrid com direito a análise do Senhor Presidente da República, umas tímidas alusões à sua prestação na Selecção Nacional que fez um grande jogo ao empatar com uma agremiação desportiva de valor nulo.

Fora estas importantes novidades, assisti hipnotizado; a uma entrevista do Ministro da Agricultura que, num tom monocórdico, tentou convencer o país que quase todos os agricultores portugueses são (no mínimo) gente de maus fígados e pouco sérios. Uma profusão de telenovelas e o anúncio de mais uma dezena de novas obras-primas da ficção nacional que roubam os seus títulos a êxitos da pop nacional, vários concursos cujo os nomes não consegui decorar, mais um jogo de futebol patrocinado por Figo, uma série de televisão cujo episódio já deu cinco vezes no AXN, vários programas dedicados ao jet-set nacional em que pontuam vários actores e actrizes das novelas supracitadas e uma mão-cheia de cabeleireiros, tudo isto embrulhado no grande acontecimento mediático que foi o concurso de marchas populares em que se discutiu taco-a-taco o título do bairro mais desafinado da capital.

Fiquei assim definitivamente esclarecido quanto à qualidade da televisão feita nos quatro canais e não vou sequer debruçar-me sobre as inenarráveis tentativas de divulgação cultural do Canal 2 que daria material para vários posts.


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